Se chorar adiantasse alguma coisa, pica pau morria feliz. (Do que que eu tô falando!?!)

Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008
Estou chegando...

By Marcel (Infelizmente)

 

Chove calmamente.

O dia nublado, cinza.

Os passarinhos todos estão escondidos.

Onde será que se escondem os passarinhos?

Ele coloca as asas para fora do abrigo para saber se a chuva passou?

Não está ventando, mas mesmo assim o dia está frio.

Eu já estou há mais de vinte minutos escondido sob o orelhão em frente a esse bar.

Não me escondi aqui da chuva. Foi a chuva que chegou enquanto eu estava ao telefone.

Já passa das duas horas da tarde, e as poucas pessoas que vejo daqui, correm apressadas com medo que os pingos aumentem.

Um barulho forte de freada brusca de carro lá ao longe...

Xi! Acho que bateu!

Uma senhora andando devagar com sua sombrinha que não consegue proteger nem metade de seu corpo.

Um homem andando despreocupadamente, de chapéu, guarda chuva fechado na mão e fumando seu cigarro.

Uma criança levando bronca da mãe porque insistia na saudável brincadeira de querer deitar-se rente ao meio fio para tomar banho de enxurrada.

Quando eu era pequeno fazia a mesma coisa! E apanhava do mesmo jeito da minha mãe!

No boteco lá da esquina, não nesse no qual estou em frente, o pessoal canta música caipira, acompanhada por um violeiro de chapéu de palha, que canta com uma voz afinada de dar inveja.

Nesse boteco no qual estou em frente, apenas um caipora joga sinuca sozinho. Aliás, ele brinca apenas com a bola branca. Ele me parece triste e sem rumo.

Tem três crianças protegendo-se sob o toldo de uma loja de roupas, todas juntas. Acho que são irmãos, pois do nada resolveram sair e correram todas juntas, de mãos dadas. O mais velho na frente e puxando as duas mais novas com cuidado.

Tem um pombo no meio da rua, procurando comida e sem dar a menor bola para a chuva. Olhando daqui, o modo como ele mexe a cabeça descontrolada, para frente e para trás, andando aos pulinhos e parando com um dos pés somente, me parece ser um pombo surtado.

Ele está olhando pra mim? Está!

O pombo louco chegou até perto dos meus pés e deixou o pedaço de comida que estava em seu bico, ao meu lado.

Obrigado, pombo louco, eu como depois, tá?

Saiu voando.

Que trovão!

Parece que arrebentou bem em cima de minha cabeça!

E com isso, o moleque que vinha todo faceiro em sua bicicleta, pedalando sem as mãos, assustou-se com a pancada da trovoada e estatelou-se no chão.

Hum... que tombo!

E que vontade de dar risada!

Está no chão, com a maior cara de tacho, fingindo que tudo está bem e arrumando as tiras de seu chinelo havaianas que arrebentou.

Olha que interessante! Estou reconhecendo ao lado do moleque azarado, o pombo doidão que  está ali também.

Deixou um pedacinho de pão e foi-se embora voando.

Está trovejando demais agora!

Gosto de chuva, mas confesso que se estivesse em casa seria bem melhor.

A chuva aumentou um pouco e agora está invadindo meu abrigo.

Esse orelhão.

E essa chuva que não passa, e que fez o favor de me pegar aqui, de surpresa enquanto falava ao telefone.

Estava falando com ela! Linda, doce e especial!

Estava explicando a ela que iria ter que adiar minha chegada no dia de hoje.

Não poderia vir, pois surgiu um imprevisto e teria que ficar mais dois dias fora da cidade.

Ela ficou triste!

Os filhos dela estavam fazendo barulho em volta dela enquanto conversávamos.

Os filhos delas são meus também.

Ela é minha esposa!

Fiquei uma semana fora, e agora estou aqui, com as malas junto aos meus pés, ensopado da chuva, que me pegou enquanto eu explicava a minha esposa que não poderia voltar naquele dia.

E os créditos do cartão telefônico acabaram-se, então.

Ficou mudo e ela ficou triste.

Mas vou acabar com a tristeza dela, ah, vou sim!

Estou com as minhas malas aos meus pés, uma semana fora de casa e a saudade dela e dos meus filhos está me matando.

E eu menti com relação ao atraso!

Vou pegá-la de surpresa.

Que saudades imensa!

Deixa eu ir então, que essas malas estão ficando encharcadas, e ficarão cada vez mais pesadas.

Estou sozinho aqui para carregá-las.

Mas isso também não é muito problema.

Eu moro ali em frente mesmo, está vendo?

Estou vendo a sombra dela pela janela.

Então dá licença que estou indo!

Ah, que saudade dela!

Fuiiiii...


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postado por Marcelzero às 15:16
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Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008
Chorinho contido

By Marcel (infelizmente)

 

Entra afiada como se fosse adaga

Deixando-me sensível a qualquer sentimento

Um elevador, um soluço que me pega desprevenido

Um chorinho contido ao fim de risadas.

 

Olhos perdidos

Úmidos

Feito orvalho

 

Aperto no peito

Picada de abelha, dilacerante

Minutos disfarçados de segundos

Horas que demoram dias

Angustiante

 

Quando estamos juntos

Dias inteiros

Que parecem minutos

 

No meio do dia aparece

Cresce, cresce e cresce

Não respeita minhas ordens

Não desaparece

 

É saudade o nome

Cruel

Parasita

 

E com a adaga que eu a mato

Na sexta à noite

Ela mergulha em minhas costas

Assim que o domingo despede-se.

 

Fim de semana que foi-se...



postado por Marcelzero às 19:29
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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008
É banzo...

By Marcel (Infelizmente)

 

Aquele desespero que sinto em certas horas do dia

É o que faz que eu tenha mais medo da noite.

O travesseiro molhado e meu estômago gelado

Não me deixam dormir como eu queria.

Já decorei o caminho que faz

Cada rachadura que corre o meu teto

A aranha que eu vejo lá em cima se tornou minha amiga

Atrás do guarda-roupa mora uma lagartixa

Embaixo da cama uma família de baratas

Da porta até a cozinha um caminho de formigas

Que levam embora as migalhas de pão velho

O mesmo pão que eu recusei ao mendigo.

E agora eu me digo o porquê do vazio

E agora eu mendigo pra encher meu vazio.

O medo da noite que antes eu não tinha

E esse desespero que eu sinto em certas horas do dia.


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postado por Marcelzero às 18:59
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