Se chorar adiantasse alguma coisa, pica pau morria feliz. (Do que que eu tô falando!?!)
Quarta-feira, 11 de Junho de 2008
O dono do corpo

By Marcel (Infelizmente)

 

Soltei o pum lá atrás, bem lá atrás, nem dá para enxergar daqui onde foi que deixei escapulir o vento anal.

Na verdade soltei vários.

O primeiro foi sem querer, mas aí já sabe. Abre-se a porteira e, onde passa um boi, passa também uma boiada.

No momento me assustei, saiu meio que sem querer, sei lá.

Olhei para os lados, dei uma disfarçada e fui saindo do local, afinal percebi que o efeito não iria ser nada agradável e, com certeza, quem estivesse perto iria perceber.

Saí rápido, com os passos apressados e olhando para todos os lados verificando se alguém havia reparado.

Nem fez muito barulho.

Foi daqueles silenciosos, e todos nós sabemos que os silenciosos são os mais devastadores.

E era.

Bom, mas já disse que saí apressado, e no caminho, senti uma leve dor de barriga se formando.

Era como se uma tempestade estivesse se aproximando e, devagarzinho, trazendo suas nuvens negras carregadas da mais pura merda concentrada e em quantidade nunca antes vista.

Apertei mais o passo, e tive que me desdobrar em acrobacias que iam da tentativa de andar e ao mesmo tempo manter as pernas fechadas. Algo que você deve imaginar que seja impossível.

E realmente era.

Enquanto ia me afastando do alcance da primeira saraivada de gases, não pude evitar soltar mais alguns tiros retais, na tentativa de aliviar meu corpo daquela tempestade terrível que estava dentro de mim.

A cada poste que encontrava eu parava, me concentrava e rezava aos céus, para que a tortura acabasse logo.

Enquanto eu corria, eu pensava desesperado se havia algum santo protetor dos seres com dor de barriga. Não achei nenhum, mas eu jurava que havia, eu jurava.

“São Longuinho, São longuinho, se eu escapar dessa dou três pulinhos”, eu rezava fervorosamente.

Passei em frente a uma lanchonete, e lá havia um banheiro. Mas em volta do banheiro, havia também pessoas, felizes e de bem com a vida, alimentando-se. Achei melhor poupá-los, ninguém era culpado de meu triste destino.

Só Deus sabe como me arrependo de não ter parado ali.

Trovejou forte dentro de mim, e eu posso jurar que quem estava em volta conseguiu escutar a rebordoada mesmo com o barulho infernal do trânsito.

Bateu o desespero!

Numa disparada tresloucada, saí desbaratinado sem saber para onde ia. Eu já estava perdendo a noção de localização.

Já não sabia mais onde eu me encontrava.

Para mim só existia eu e a maldita dor de barriga que a cada puxão me fazia retorcer de dor e desespero.

Enxerguei um orelhão!

Corri até ele, do jeito mais rápido que consegui, trançando as pernas e soltando rajadas fortes atrás de mim. Estava quase alcançando o aparelho quando uma senhora atravessou o meu caminho e se enfiou na cabine.

“Cheguei primeiro, viu?” disse com ar de desprezo.

Quis defecar na cara da velha.

Mas me contive, e em meio a gemidos e orações, esperei intermináveis um minuto e meio até a simpática senhora desocupar o telefone.

“Muito obrigadinha”, disse ao sair, olhando para mim.

“Me deixe em paz”, pensei.

Agarrei o telefone e disquei desesperado o primeiro número que me vinha à cabeça naquele momento de angústia e sofrimento.

Chamou uma vez, chamou duas vezes, três, sei lá mais quantas vezes, e creia, meus olhos já derrubavam copiosas lágrimas de sofreguidão.

“Alô”. Alguém havia atendido!

“Alô, quem fala!”, respondi sentindo o ânimo voltar a todo vapor.

“5555-8589, quem gostaria?”

“É o Sílvio!”, respondi esperançoso.

“Silvinho? É você meu filho?”

“Vó?”

“Ô Silvinho, quanto tempo meu neto!”

Eu havia ido a sua casa no dia anterior.

“Me ajuda, vó!”, implorei.

“Silvinho, sua avó aqui tá com saudades viu. Olha, vem que eu passo um cafezinho na hora, tem bolacha pra voc...”

Ah, minha vó! Minha doce e adorada vó! Tinha o dom de não escutar nada até que terminasse o que tinha para dizer. Que doce.

“Me ajuda, vó!”

“... pois é então, troquei a geladeira, aquela tava velhinha né, igualzinho sua avó aqui. Ihihihihih...”.

A risada da minha vó nunca me pareceu tão medonha.

Bati o telefone na cara dela. Sinto muito, depois eu explicaria melhor.

Meu rosto já estava molhado pelas lágrimas que rolavam sem controle.

Então resolvi prosseguir meu caminho, e tentar dar um primeiro passo, já que a situação exigia que algo fosse feito.

Era andar ou andar!

Primeiro passo, lentamente, e nada! Segundo, e nada! Terceiro, quarto, quinto, sexto, e nada!

Já estava esboçando um sorriso quando senti o primeiro sinal do desastre.

Um peido sutil, porém com a marca da desgraça. Senti o danado sair molhado, e acompanhado de uma cólica terrível nas entranhas.

Eu estava entendendo agora aquela piadinha sobre o cú se autodenominar o senhor do corpo humano. Era verdade.

Eu já não enxergava e nem escutava mais nada, tamanha era a dor e a angústia que sentia. Imagine-se correndo pelas ruas, parando de poste em poste, com o rosto transformado pela tristeza, e percebendo que ninguém poderia lhe ajudar.

“Tá tudo bem, meu filho?”, uma moça me parou segurando-me pelos braços.

“Se você não me largar vai piorar, tenha certeza!”, respondi com voz de satanás.

Segui meu caminho sem norte e deixei me guiar pelas minhas pernas que também não sabiam para onde estava indo e que, com certeza, deveriam estar sendo guiadas pelo mestre que controla todo o corpo humano: o ânus.

“Ó meu São Francisco, tu que ama os animais, ajuda aí em cima mais esse animal perdido que pede somente um vaso sanitário!”. Eu já delirava.

Eu me imaginava correndo por campos verdes, intermináveis, pulando e sorrindo de felicidade, misturado em meio a plantações de flores silvestres, de todas as cores e formatos. Havia por ali um vaso sanitário em cada lugar, e eu parava em todos, me sentava e saia pulando de alegria e paz.

Delírios de uma mente já insana.

Mas de volta a realidade, com os olhos já vidrados de pavor e medo, me deparei com um milagre.

Em minha enlouquecida disparada havia ido parar em frente à casa de minha avó! Só podia ser um sonho!

Apertei a campainha morrendo de alegria.

“É isso aí cara, você conseguiu!”, eu pensava exultante.

Ninguém atendeu.

Chorando alto igual criança, apertei mais uma vez. E mais uma, e mais outra e depois mais outra, e várias vezes seguidas.

“Você não vai atender?”, consegui escutar bem baixinho, meu avô perguntando a minha avó.

“Eu não, moleque maleducado, desligou o telefone na minha cara. Deixe ele um pouquinho lá fora, depois eu atendo ele... ihihihihih...”

Parei de chorar.

Eu balançava a cabeça de modo sistemático, como que em estado de convulsão.

Nem me dei ao trabalho de abaixar as calças.

Fiz tudo ali mesmo de pé e aproveitei cada segundo, cada momento do prazer que eu sentia.

E, com um sorriso diabólico nos lábios, eu pensava se realmente era pecado matar a própria avó.



postado por Marcelzero às 22:05
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